Ter agência é implicar-se na própria desordem

(Série: vocabulário da psicanálise e neurociência. Ep 1)

Hoje vamos falar de conceitos bem importantes no mundo da neurociência e da psicanálise (sim, os dois universos tem muitos paralelos! Não é incrível isso? Como Freud láááá em 1900 já conseguiu antecipar e prever tantas coisas que a ciência só viria a descobrir depois do século XXI?  O cara era bom)  

Enfim, com essa série de vocabulários, minha intenção é ampliar a nossa possibilidade de refletir, questionar e avaliar nossa existência. Como escreveu George Orwell em 1984, quanto mais vocabulário temos, mais profunda nossa capacidade de pensamento crítico, de abstração, de compreender a vida e a nós mesmos. Nosso mundão interno, esse negócio complexo, incrível tão familiar e ao mesmo tão estranho a nós.

Ou seja, é só ganho. Então vamos lá aos conceitos do dia:

1 TER AGÊNCIA (conceito da neurociência e da psicologia cognitiva) é conseguir agir. Ter condições de direcionar a própria vida. É saber que existe uma possibilidade de interferir nas circunstancias ao nosso redor, e portanto, agir.

2 IMPLICAR-SE: é um termo muito usado no campo da psicanálise para referir-se a uma responsabilização subjetiva do sujeito sobre suas próprias falas, desejos, sintomas, atitudes. Tem a ver com reconhecer-se agente de sua própria história e sofrimento e, a partir daí, decidir como proceder.

Ambos os conceitos constituem praticamente um chamado à ação. O primeiro de forma mais concreta, sistemática, e o segundo de forma mais subjetiva, convocando o sujeito a assumir sua própria experiência e desejo – olha que difícil isso… Deu pra entender?

Quando Freud pergunta para sua paciente Dora em 1900 “qual sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?” ele a está convocando para a ação. E veja bem, a ação não precisa ser concreta e física, pode ser interior. Um movimento na forma de pensar, uma ampliação no olhar, uma mudança de ângulo, uma percepção maior de si e do cenário que se desenrola. Tudo isso entra no implicar-se subjetivamente.

(Freud e Dora)

E aí olha que legal: se eu consigo AGIR frente uma circunstância desafiadora (tomar uma atitude, me movimentar, me questionar ou dar um passo – mesmo que mínimo- ) eu começo a criar evidências concretas de que sou capaz de agir. E a partir dessas evidências, desenvolvo um maior senso de agência! Ou seja, nosso cérebro – que está sempre moldando a percepção que tem de nós e nosso ambiente ao redor – começa a confiar na minha capacidade de agir e de sustentar meu desejo e minha posição de sujeito. E isso é mágico!

(adendo importante: é lógico que a vida vai trazer situações difíceis e que vamos nos sentir paralisados, emocionalmente abalados, ou que vamos ter dificuldade de agir, refletir, pensar, construir um pensamento!! Mas se isso já se tornou algo crônico, que está durando há um tempo, então é preciso olhar com mais cuidado e carinho para tudo e buscar entender aonde está o problema. Desde quando me sinto assim? Me sinto paralisado como? Diante de que? O que eu gostaria de fazer que não estou conseguindo fazer? Tem algum pequeno passo que eu poderia dar em direção a esse lugar que quero chegar? Há sequer um lugar onde eu gostaria de chegar? Não hesite em buscar ajuda!)

Pergunta para refletir:

Frente a uma situação x, eu consigo tomar uma atitude? Ou me sinto paralisado? Qual é o meu senso de agência?

(lembrando que o senso de agência é a sensação: fui EU quem fiz isso. “Eu fui capaz de controlar esse movimento / ação / decisão”)

E aqui essa pergunta se divide em dois:

1 como está a sua agência? (o seu agir?) De que forma você tem se implicado nas suas questões?

2 como está a sua percepção dessa agência? (vc está percebendo corretamente o seu agir? Ou há alguma dissonância entre a sua percepção e sua ação?)

Por hoje é só pessoal

Qualquer dúvida podem deixar aqui ou me chamar no zap

Beijos e uma semana com muita agência concreta e “implicações” subjetivas

Como Nossas Emoções Guiam Nossas Decisões?

É comum a gente falar: “não sei se sigo a razão ou a emoção” na hora de tomar uma decisão. Ou então: “Não sei se escuto meu cérebro ou meu coração” (principalmente os mais os mais dramáticos de nós. Que jogue a primeira pedra quem nunca deu uma dramatizada básica? Eu já).

Mas a verdade é que quanto mais a neurociência se aprofunda no tema, mais ela chega a conclusão de que emoção e cognição são dois lados da mesma moeda! Elas não são opostas, são inseparáveis. Não tem como a gente “desligar” um para usar o outro, porque a gente usa os dois ao mesmo tempo, o tempo todo. Um influencia o outro: o pensamento influencia a emoção e a emoção influencia o pensamento.

Antônio Damasio, no livro O Erro de Descartes, critica a ideia de que a razão seja uma instância “superior”, e que a emoção atrapalha o pensamento e a tomada de decisões. Ele mostra o contrário: sem emoção, não conseguimos decidir bem. Por que? Porque a emoção nos ajuda a avaliar o contexto, as memórias. A guiar nossas prioridades, evitar riscos, pesar prós e contras.

Damasio traz a ideia de “marcadores somáticos”, que são sinais corporais ligados a emoções e que ajudam muito na hora de tomar uma decisão. E como isso funciona na prática? Assim: você vive uma experiência, e ela te gera uma emoção (alegria, tristeza, angústia, medo, etc). Essa emoção não se perde. Ela fica registrada no corpo, no cérebro, no inconsciente. E na hora de tomar uma decisão, o corpo “sinaliza” automaticamente ao nosso cortex pre frontal (O QG, onde a mágica da execução acontece!), orientando, assim, a nossa decisão. Faz sentido?

Tá… mas então por que parece que estamos divididos?

Porque nós estamos divididos mesmo! Mas não entre razão e emoção, e sim entre os diferentes, conflitantes, opostos desejos que nos habitam (Alô Freud e companhia!). Temos diferentes instâncias dentro de nós, que entram em conflito o tempo todo, querendo coisas distintas. Somos sujeitos divididos!

Quero muito comer mais um pedaço de bolo (mas também quero um corpo saudável, maneirar no açúcar). Quero ser mãe (mas também quero crescer na carreira e ser dona do meu tempo). Quero ficar com tal pessoa (mas sei que ela não me faz bem e depois vou chorar em posição fetal no meu quarto).

Somos seres complexos!

Entende o que eu quero dizer? Isso é normal, faz parte da experiência humana, somos dialéticos, queremos muitas coisas ao mesmo tempo, coisas opostas inclusive. Quem nunca?

Também podemos sentir coisas opostas frente a uma mesma situação. Posso estar eufórica diante de uma gravidez, e ao mesmo tempo muito preocupada e angustiada, também com muito cansaço mental.

E está tudo bem =) Abraçar todas nossas emoções, sem julgar, é o primeiro passo rumo a uma maior maturidade emocional. Não brigar com a emoção, mas questioná-la, refletir sobre ela, ver qual caminho ela faz dentro de nós, e o que ela traz de melhor ou pior em nós? O que ela está querendo dizer?

E quando tivermos de tomar uma decisão mas estivermos divididos entre duas (ou mais) opções? A pergunta que deve entrar aqui não é “razão ou emoção?”, mas sim: Qual desejo eu escolho sustentar, sabendo que outro desejo terá de ficar de fora?

Lembre-se que escolher sempre implica perder alguma coisa. Sustentar a angústia de não sermos capazes de abraçar o mundo faz parte da vida adulta (como Freud já dizia…)

Até o próximo post 🙂

Desejo a todas ótimas decisões!

Um beijo,

Débora

O psiquiatra e a bailarina

(publicado originalmente em Instagram)

A Bailarina de Auschwitz foi um livro que eu demorei para engatar. Não pela sua qualidade – ele é riquíssimo e muito bem escrito. Mas pelo fato de não se tratar de uma história fácil.  Nele, a autora conta sua vivência angustiante como sobrevivente do holocausto durante a ocupação nazista, e como aquele ano que passou como prisioneira afetou o resto de sua vida. Capturada pelos alemães aos dezesseis anos junto com toda a sua família na calada da noite, a autora conseguiu escapar dessa barbárie com vida, mesmo que por um fio. Graduou-se em psicologia e hoje, ajuda pacientes com traumas físicos e emocionais. É um livro sobre trauma, luto e superação, sem dúvida, mas acima de tudo é um livro sobre escolhas.

O nome original do livro é The Choice (A Escolha, em tradução livre), o que na realidade define muito melhor a sua essência do que o título traduzido para o português.

Porque afinal de contas, este é um livro sobre escolhas. Sobre o poder de escolha, e como ele é a única centelha de liberdade que resta quando tiram tudo o que você tem – tudo mesmo: sua casa, suas roupas, sua liberdade, sua dignidade, seus entes amados. Mesmo quando tudo isso acontece, há algo que, ainda assim, fica: o poder de escolha. A forma como você vai escolher encarar os fatos e circunstâncias. No livro, a autora é pragmática ao afirmar: Você nem sempre pode controlar as circunstâncias, mas você pode controlar a sua reação a elas.

Isso me recorda de outro livro muito emocionante do professor e psiquiatra Viktor Frankl, o seu célebre Em Busca do Sentido. Frankl era um médico psiquiatra recém-casado quando foi capturado pelos nazistas. Em seu livro, relata trechos sobre os três anos que passou lá com um olhar clínico e analítico, conforme tenta captar a essência de humanidade que ainda existia ali.

A logoterapia é uma prática psicoterapêutica que se baseia intrinsecamente no sentido da existência humana e na busca da pessoa por esse sentido. Segundo as palavras do autor “A busca de sentido da vida da pessoa é a principal força motivadora no ser humano”.

Emily em Paris – vale a pena?

(publicado originalmente no Superela)

A série do Netflix lançada no início do mês está causando polêmica entre a crítica francesa. Apesar de ter ganhado instantaneamente o coração das brasileiras e americanas e estar entre as mais vistas do mês no Brasil e nos Estados Unidos, a recepção do público francês não foi tão calorosa. Aliás, deixou a maioria irada! A crítica dos maiores jornais franceses reprovou fortemente a nova produção da Netflix, chamando a série de “deplorável e embaraçosa”.

Isso porque Emily in Paris, apesar de bem produzida e divertidíssima, pecou no excesso de clichês ao se referir aos moradores e ao estilo de vida da capital francesa, retratando-os como eternos fumantes, sem pudores, preguiçosos, atrasados e com um je ne se quois sexual – o que, apesar de terem seu fundo de verdade, acabam simplificando demais as diferentes culturas e visões de mundo dos americanos e dos franceses.

O primeiro capítulo se desenrola em estereótipo atrás de estereótipo de forma tão escrachada que eu quase desisti da série. Em apenas vinte minutos, eles já cobriram todos os clichês possíveis que podem existir sobre os franceses!

Mas vamos por partes. Afinal, vale a pena assistir a Emily in Paris?

Vale, se você ama Paris. Se você curte moda. Se você é fã de Lily Collins, filha do eterno Phil Collins, e suas charmosas sobrancelhas. Se você quer assistir uma bobagem gostosa e descontraída no fim do dia, que não vai te tirar da zona de conforto e nem te sobressaltar demais. Não espere grandes lições nem insights incríveis. Não espere uma grande obra prima que quebre paradigmas e que te faça questionar a vida ou suas escolhas. Imagine apenas uma comédia romântica simples, razoavelmente bem construída e abarrotada de clichês – não apenas culturais, mas também de estrutura de roteiro. Um conto de fadas contemporâneo, com atores bonitos desfilando em trajes incríveis pela capital francesa.

Imaginou?

É isso o que você verá – e tendo em vista o sucesso da série, talvez seja exatamente isso o que as pessoas estejam precisando nesse momento de quase um ano dessa pandemia que tirou a população do eixo e deixou todo mundo abalado (para dizer o mínimo). Apenas um respiro no fim do dia, tranquilo, sem grandes surpresas, mas que te faça sorrir.

Mas sobre o que é a série?

Emily Cooper é uma jovem publicitária (divertida, descolada, um tanto desajeitada, com um senso fashionista aflorado e uma sorte de ouro) que por acaso é transferida para trabalhar numa empresa de marketing em Paris. Ela chega lá sem falar uma palavra de francês e, conforme vai descobrindo o seu novo e delicioso cotidiano na capital francesa, tenta se estabelecer como moradora local. Ao longo dos episódios, podemos acompanhar as confusões profissionais e amorosas em que protagonista se enrosca enquanto suspiramos pela fotografia da cidade luz no pano de fundo.

E as confusões não são poucas. Ela vai precisar encontrar um meio de ser aceita pelos seus novos colegas de trabalho, que fecham o cerco contra a novata americana, enquanto tenta aprender a se comunicar na nova língua, faz amigas inesperadas e conhece um lindo mocinho capaz de fazer as espectadoras suspirarem – mas que, óbvio, tem um porém.

É inegável que os clichês vêm aos montes, que a série é bastante previsível, e que Paris e os franceses são retratados por uma ótica completamente hollywoodiana.

Mas ainda assim, há grandes chances de a série ganhar o seu coração. Pense nela como um respiro no final do dia, principalmente em épocas de pandemia e exaustão mental e psicológica. Um conto de fadas contemporâneo para fazer você se sentir bem depois de um dia cheio.

 

Pequenos Incêndios por Toda a Parte

(publicado originalmente em Super Ela)

Little Fires Everywhere é um caso raro.

Sempre digo que livros são melhores do que suas adaptações para as telas, mas confesso que neste caso específico, a série superou – e muito – o livro. Baseada no romance homônimo da autora Celeste Ng, os roteiristas conseguiram dar vida à tópicos ainda mais relevantes do que a obra literária, além de trazer atuações excelentes.

Elena, interpretada pela Reese Whiterspoon, se orgulha de ter tudo imaculadamente sob controle o tempo todo. É uma mãe devota, que vive sua vida perfeita, em sua casa grandiosa no bairro perfeito, com seu marido perfeito e seus quatro filhos perfeitos. Nada parece abalar a segurança e controle dessa protagonista forte e determinada em sua vida tranquila e milimetricamente planejada – a não ser os pequenos conflitos corriqueiros que trava com sua rebelde filha caçula, Izzy, que não se encaixa na perfeição da família e não suporta seguir os padrões impostos pela mãe e pela sociedade em que vive.

E é neste contexto que Mia Warren, uma artista pobre, negra e mãe solo da jovem Pearl, chega na cidade.

A saga começa quando Elena, penalizada com a situação da nova moradora do bairro, decide ajudá-la e acaba alugando um apartamento para ela, facilitando toda a burocracia e parte financeira do processo.

Neste primeiro contato entre as duas protagonistas já podemos perceber a destoante realidade financeira, ideológica e social de cada uma – e a conversa repleta de tensão entre elas. Elena sorridente e orgulhosa de cada detalhe da vida perfeita e politicamente correta que construiu – e Mia, afiada e instigante, desprezando cada um deles. Tudo nas entrelinhas, é claro.

A partir deste momento, as vidas dessas duas mulheres acabam se tornando intrinsecamente conectadas, e, pouco a pouco, segredos do passado começam a vir à tona e ser revelados.

Pearl, a filha adolescente de Mia se torna amiga de Moody, filho adolescente de Elena e começa a frequentar sua casa, tendo acesso a uma vida de privilégios e estabilidade que nunca teve. Enquanto isso, Izzy, a incompreendida caçula de Elena, se encanta pelo exótico estilo de vida de Mia: livre das amarras e convenções fúteis da sociedade, devotada à sua arte desafiadora e provocante.

A série extrapola nas questões raciais e de classes, mas os temas vão muito além disso. No segundo capítulo conhecemos Bebe Chow, uma jovem e solitária imigrante chinesa que está nos Estados Unidos ilegalmente. Mia acaba conseguindo um emprego de meio período como garçonete no mesmo restaurante que Bebe, e o laço entre as duas se fortalece quando esta revela um segredo sombrio sobre seu passado

A partir daí a história se desenrola para novos horizontes, com reviravoltas surpreendentes, trazendo novos personagens fortes e complexos em suas escolhas e histórias de vida. Nesse contexto, a maternidade é abordada sob diversos pontos de vista, trazendo indagações multifacetadas, duras e polêmicas como: há espaço no mundo para perdoar uma mãe desesperada que toma decisões desesperadas que prejudicam seus filhos?

Uma mãe biológica é mais ‘mãe’ do que uma mãe adotiva? O aborto é aceitável ou perdoável? Em quais circunstâncias?

O amor de uma mãe pelos seus filhos transcende tudo?

Mas acima de tudo, a série traz reflexões importantes sobre a difícil tarefa de pagar pelo preço de nossas próprias escolhas, evidenciando batalhas duras que refletem os conflitos de milhões de mulheres mundo afora e transcendem qualquer questão racial ou de classe.

Afinal, nada é tão preto no branco quanto parece: somos todos humanos, demasiadamente humanos, nos nossos erros, sonhos e intenções.

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Destaque especial para Reese Whiterspoon, a nossa eterna Elle Woods de Legalmente Loira, que está impecável em seu papel de matriarca controladora e politicamente correta da família. A trilha sonora também merece uma atenção especial – fãs dos anos noventa irão se deleitar ao som de Alanis Morissette, Mariah Carey e The Cardigans.

Fleabag, a série mais premiada do ano

Ela mora em Londres, tem trinta e poucos anos e acaba de perder uma pessoa especial. É solitária, muito espirituosa e, apesar de suas boas intenções, nem sempre age dentro dos conformes. Está a todo momento se metendo em encrencas astronômicas. Parece um enredo bem comum, né? Mas não se deixe enganar. Em Fleabag, seriado que levou quatro Emmys no ano passado e mais alguns prêmios neste ano, vamos conhecer essa protagonista muito espontânea, ousada e inteligente que, com sua mente inquieta e borbulhante, podia muito bem ser qualquer um de nós.

Fleabag: Segunda Temporada (2019) | Crítica - Vamos Falar de Cinema!

Com franqueza inigualável, encontros inusitados e diálogos ao mesmo tempo simples e profundos, a série retrata a complexidade que é a existência humana. Acompanhamos de perto as relações conflituosas, os laços familiares intensos, a urgência da personagem em se sentir amada, tocada e bem quista. Tudo sempre com um toque de comédia e muito bom humor. É impossível não rir e se identificar com ela.

Adepta à auto sabotagem (quem sempre?), ela reage às situações cotidianas de maneira quase sempre autodestrutiva. Seja no trabalho, com a família, ou em seus encontros sociais e amorosos. Nós, espectadores, sofremos com ela enquanto testemunhamos, episódio após episódio, suas decisões que vão de péssimas a duvidosas de maneiras que nem precisaríamos de Freud para explicar.

O modo como ela transita pelos seus dias convertem-se em profundas reflexões sobre a vida, família, amor, solidão e sexualidade feminina – aliás, a série vai comprovar que apesar de estarmos em pleno século XXI, esta ainda é uma área muito mal explorada e repleta de tabus. Não há uma cena de nudez sequer durante as duas temporadas, porém a série toda é intensamente sexual. Aborda-se o tema com muita liberdade, mostrando todos os seus aspectos de forma visceral e sem rodeios.

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O que mais me marcou em Fleabag é a força e autenticidade da personagem em manter-se honesta consigo mesma neste mundo onde, numa angustiante busca eterna por aprovação e pertencimento, usamos máscaras o tempo todo. Escondemo-nos atrás de rixas políticas, falsos moralismos, relacionamentos dominadores, desculpas esfarrapadas, causas tidas como nobres… não por acreditarmos genuinamente, mas pela simples necessidade que temos de nos sentir parte de algo maior. Fleabag consegue ir direto ao ponto e nos mostrar isso com muita simplicidade, fazendo-nos questionar essas causas e valores às quais nos agarramos tão fervorosamente, e prova: nada é tão simples assim, e ninguém é exatamente o que parece.

Afinal, você é verdadeiro consigo mesmo? É difícil distinguir o que cada um é genuinamente daquilo que é anexado de fora. Como lidamos com a perda? Não me refiro apenas à mortes ou términos de relacionamento. Falo dessa sensação crônica e atual de estarmos sempre tentando nos reerguer, dia após dia, em tempos agitados onde tudo é muito intenso e acontece muito rápido, expectativas estão sempre altas, as quedas são sempre bruscas e as perdas, diárias – sejam grandes ou pequenas.

Num formato moderno e intimista, a série é bem curta: apenas duas temporadas, ambas com início, meio e fim, que vão direto ao ponto. Sem as típicas enrolações que fazem o espectador se sentir tapeado. Obrigada, Fleabag, por respeitar nossa inteligência e nosso tempo.

Estranha e Engraçada. *FLEABAG* | by Laize Ricarte | MediumFleabag é sobre errar e se aceitar nessa intrincada e estabanada jornada de vida. Ela veio para nos esfregar na cara algumas doloridas e necessárias verdades, para nos fazer questionar sobre como levamos nossos dias, como baseamos nossas escolhas, quais os nossos reais valores, mas, principalmente, para desmistificar essa ideia romantizada de clichês resolutórios de superação total. Nem tudo na vida tem solução, e tudo bem! Vida que segue. Difícil, né?

Mas não desanime: logo na abertura do primeiro episódio e durante toda a série, nossa protagonista deixa bem claro: esta é uma história de amor. Sugerindo que, talvez, como já diziam os poetas, o amor é o caminho e a solução para os males deste mundo. Será?

Lolita

(Publicado em Damas de Copas) 

Santander é criticado por mostra contendo apologia a pedofilia. Garota toca homem nu em mostra do MAM. Tudo isso faz a pedofilia existente no nosso país parecer algo menos demoníaco, quase artístico (se é que isso é possível…)

Em meio a tantas notícias horrendas envolvendo o tema, decidi mergulhar na obra que trouxe o conceito à arte (se é que isso é possível – parte 2….) e trago um livro imprescindível e BASTANTE polêmico: Lolita, de Vladimir Nabokov.

O livro narra o amor obsessivo do professor europeu de meia idade Humbert Humbert, por Dolores Haze, mais conhecida como Lolita, uma garota de apenas doze anos de idade. Nojento? Muito. A menina nos é apresentada do ponto de vista do homem de meia idade, desnorteado e cego de amor. Para nós leitores, Lolita é apenas uma menina magricela, mal-educada e rebelde de doze anos. Mas aos olhos do protagonista, ela é endeusada.

Apesar do sexo estar no cerne da história, Lolita não é, de maneira alguma, um livro erótico.

Na verdade, o impacto psicológico que o desejo que o Humbert tem por Lolita é mais importante e perturbador do que a consumação desse desejo. O erotismo da narrativa é apenas um elemento para embasar a ironia e sarcasmo que estão presentes em toda a obra – como se o próprio autor estivesse caçoando do narrador.

Em muitos momentos da narrativa confesso que quase parei a leitura, tamanho asco da temática. Mas as descrições e o jeito de narrar a história de Nabokov, que mescla o estilo magnífico de seus antecessores russos com o moderno mundo americano, torna-a uma obra única.

Um livro que levou anos para ser publicado, e foi renegado por muitos países até se tornar o que é hoje um dos mais importantes romances do século XX. Apesar das ressalvas, recomendo muito.

A Vida de Leonardo da Vinci

(publicado originalmente em Dama de Copas)
A biografia do Leonardo da Vinci, escrito pelo historiador Walter Isaacson, autor de outras biografias renomadas como de Albert Einstein e Steve Jobs) está incrível!  Se você gosta de história, arte e – por quê não, romance – não tem como não curtir esse livro.
Neste volume incrível, Walter nos apresenta a fascinante história do menino que nasceu bastardo numa cidadezinha italiana do século XV e, sem ter nenhum acesso a uma educação de nível, se tornou um dos maiores gênios da história da arte. Na verdade, ser bastardo foi crucial para que ele tivesse a liberdade de seguir seu talento e tornar-se o mestre que se tornou.
O livro conta sobre sua infância na cidade toscana de Vinci – por isso, o conhecemos por Leo da Vinci hoje.
Iniciou sua carreira como um simples aprendiz e desde os primeiros dias chamava a atenção pelo seu perfeccionismo, sua paciência, sua capacidade de observação e talento. Ele não só pintava, mas também tinha interesse e talento descomunal pela área das ciências, arquitetura e urbanismo.
Nutria uma paixão por estudar o vôo dos pássaros, e assim projetou máquinas voadoras, roupas de mergulho e sistemas de drenagem. Além disso, projetou também pontes e cidades inteiras, e criou técnicas de construção válidas até os dias de hoje.
A obra traz detalhes sobre sua personalidade e seus relacionamentos, e ficamos sabendo também que Leo era seletivo com o tipo de trabalho que aceitaria fazer. Priorizava amigos ou pessoas próximas, e não gostava de receber ordens em demasia. Conseguia retratar detalhes da anatomia humana de forma única.
A última ceia, uma de suas obras mais importantes, que retrata os apóstolos na última reunião antes de Jesus ser crucificado – e está hoje disponível no Louvre, em Paris – é um exemplo de como ele misturava gema de ovo, óleos e cera de abelha para para conseguir chegar na técnica que vislumbrava para suas telas. Ele era incansável até conseguir atingir o nível de perfeição que queria.
O autor explica de forma quase poética como analisar um quadro, prestando atenção em detalhes como o estilo da pincelada ou na paleta de cores. Ele faz um apanhado riquíssimo sobre sua obra, traz muitas imagens e escreve de maneira leve, mas com MUITA informação e riqueza de detalhes sobre seus quadros e feitos. Tudo baseado nos cadernos que o próprio Leonardo deixou – e em outras biografias sobre ele.
Monalisa foi a pintura a qual mais se dedicou, no fim de sua vida. Ela foi encontrada ao seu lado, no leito de sua morte, e é uma das obras de arte mais célebres do planeta.
A vontade que fica é a de viajar para conhecer todas as suas obras de perto =)

Pensar demais faz mal à saúde

(publicado originalmente em superela.com.br)

Essa semana eu estava tranquilamente nos meus afazeres quando recebi de meu marido um artigo muito interessante que comprovava cientificamente o seguinte fato: pessoas que pensam mais, morrem mais cedo. Oras, então eu me pergunto: será que todos nós aqui morreremos mais cedo? Quem lê, em geral, pensa. Então se você está aí no seu celular ou computador lendo isso, e eu aqui com meu bloquinho escrevendo, é porque pensamos. E agora José?

Pensar é ótimo, temos de reconhecer! Somos, em tese, os únicos animais da fauna terrestre que possui tantos neurônios e são capazes de formar raciocínios lógicos. Foi através do pensar que o homem conquistou tantos avanços tecnológicos e medicinais. O telefone, o antibiótico, o banheiro… não são coisas incríveis? Sem as quais quase não conseguimos viver? Invenções que só foram possíveis porque alguém foi capaz de pensar sobre elas. Formular ideias, colocá-las em prática. Então sim, pensar, quando se está construindo algo e focando em coisas úteis, voltadas para um bem maior, é uma dádiva.

Mas… às vezes, pensar não nos leva à lugar algum, você já pensou nisso? Às vezes damos voltas e voltas e criamos esquemas lógicos na cabeça para chegarmos a conclusões sem as quais viveríamos muito melhor. Entramos em paranoias desnecessárias, procuramos “sarna para nos coçar”, como diria o ditado.

É preciso filtrar o que é bom e útil, do que é ruim e destrutivo. Mas nosso filtro nem sempre funciona, e às vezes a gente acaba entrando em espirais de pensamentos negativos, que de nada nos serve, apenas para desgastar nossas mentes e nos deixar chateados. Pensar demais sobre temas obscuros e se jogar com os dois pés neles também nos leva a questionar sobre nossa existência, o que nunca é bom.

Saber filtrar é uma dádiva, tem gente que já vem com isso de fábrica. Mas acredito que é uma habilidade que possa ser trabalhada. Ponderar: este pensamento me faz bem, este não faz. Aprender a sossegar o cérebro é uma arte. Ter consciência de que não devemos ir por este ou aquele pensamento, entrar nessa ou naquela paranoia, e saber focar onde é mais saudável, produtivo e feliz para a gente. É importante aprender a desligar o cérebro, você sabe desligar o seu? Eu sou péssima nisso.

Às vezes estou deitada na cama, naquele momento tão esperado do dia, pronta para dormir, já meio em alfa, transitando entre o sono e o estado de vigília – ou, com os olhos “pescando”, como diz a expressão popular – quando sou acometida por um pensamento novo. Poxa meu amigo, isso são horas? De onde vens? Não percebe que estou aqui relaxando depois de um longo dia de batalhas, pronta para me entregar ao sono dos justos? Recarregar a bateria para amanhã estar nova em folha e, quem sabe, pensar algo novo e viver novas aventuras incríveis?

Mas não. O pensamento não me dá trégua. Levanto da cama (para não acordar o marido que me enviou o artigo), tento tomar um chá, observar a calmaria da noite pela janela, espairecer a mente, e, resultado, cá estou escrevendo isso. Os pensamentos vêm aos montes!

O “Penso, logo existo” de Descartes foi praticamente substituído por “Existo (e sinto), logo penso” no revolucionário livro do neurologista Antonio Damasio – super leitura, recomendo fortemente!! Considerado o pai da filosofia racionalista, Descartes era defensor ferrenho pensamento racional acima de tudo. Mas hoje vemos que há esta controvérsia sobre sua lógica… Porque exercitar o cérebro e não exercitar o nosso espírito (essência, alma, coração, como lhe convir melhor) de nada serve. Precisamos acima de tudo sentir que estamos vivos. Sei que você sabe que está vivo, mas você se sente vivo? Se não ouvimos e damos vazão aos nossos sentimentos, adoecemos.

Sempre tive em mente que queria que meus filhos crescessem para se tornarem adultos ponderados e pensantes, então sempre estimulei a leitura e o questionamento na minha casa. Mas agora penso que talvez seja melhor que começar a ensiná-los a sentir em vez de pensar. Um é com o cérebro, o outro com o coração. Acredito que, se aprenderem a sentir, podem se tornar pessoas mais humanas, com mais empatia e sensibilidade. E talvez seja disso que o mundo realmente precisa. Saber sentir e reconhecer os sentimentos também é uma arte. Uma habilidade a ser aprendida. É a tal da inteligência emocional.

Pensar é sinônimo de viver com mais clareza. É maravilhoso, sim. Mas talvez seja bom também focarmos em uma vida com mais alma, mais beleza.

Pense nisso.

Ou não.