Pensar demais faz mal à saúde

(publicado originalmente em superela.com.br)

Essa semana eu estava tranquilamente nos meus afazeres quando recebi de meu marido um artigo muito interessante que comprovava cientificamente o seguinte fato: pessoas que pensam mais, morrem mais cedo. Oras, então eu me pergunto: será que todos nós aqui morreremos mais cedo? Quem lê, em geral, pensa. Então se você está aí no seu celular ou computador lendo isso, e eu aqui com meu bloquinho escrevendo, é porque pensamos. E agora José?

Pensar é ótimo, temos de reconhecer! Somos, em tese, os únicos animais da fauna terrestre que possui tantos neurônios e são capazes de formar raciocínios lógicos. Foi através do pensar que o homem conquistou tantos avanços tecnológicos e medicinais. O telefone, o antibiótico, o banheiro… não são coisas incríveis? Sem as quais quase não conseguimos viver? Invenções que só foram possíveis porque alguém foi capaz de pensar sobre elas. Formular ideias, colocá-las em prática. Então sim, pensar, quando se está construindo algo e focando em coisas úteis, voltadas para um bem maior, é uma dádiva.

Mas… às vezes, pensar não nos leva à lugar algum, você já pensou nisso? Às vezes damos voltas e voltas e criamos esquemas lógicos na cabeça para chegarmos a conclusões sem as quais viveríamos muito melhor. Entramos em paranoias desnecessárias, procuramos “sarna para nos coçar”, como diria o ditado.

É preciso filtrar o que é bom e útil, do que é ruim e destrutivo. Mas nosso filtro nem sempre funciona, e às vezes a gente acaba entrando em espirais de pensamentos negativos, que de nada nos serve, apenas para desgastar nossas mentes e nos deixar chateados. Pensar demais sobre temas obscuros e se jogar com os dois pés neles também nos leva a questionar sobre nossa existência, o que nunca é bom.

Saber filtrar é uma dádiva, tem gente que já vem com isso de fábrica. Mas acredito que é uma habilidade que possa ser trabalhada. Ponderar: este pensamento me faz bem, este não faz. Aprender a sossegar o cérebro é uma arte. Ter consciência de que não devemos ir por este ou aquele pensamento, entrar nessa ou naquela paranoia, e saber focar onde é mais saudável, produtivo e feliz para a gente. É importante aprender a desligar o cérebro, você sabe desligar o seu? Eu sou péssima nisso.

Às vezes estou deitada na cama, naquele momento tão esperado do dia, pronta para dormir, já meio em alfa, transitando entre o sono e o estado de vigília – ou, com os olhos “pescando”, como diz a expressão popular – quando sou acometida por um pensamento novo. Poxa meu amigo, isso são horas? De onde vens? Não percebe que estou aqui relaxando depois de um longo dia de batalhas, pronta para me entregar ao sono dos justos? Recarregar a bateria para amanhã estar nova em folha e, quem sabe, pensar algo novo e viver novas aventuras incríveis?

Mas não. O pensamento não me dá trégua. Levanto da cama (para não acordar o marido que me enviou o artigo), tento tomar um chá, observar a calmaria da noite pela janela, espairecer a mente, e, resultado, cá estou escrevendo isso. Os pensamentos vêm aos montes!

O “Penso, logo existo” de Descartes foi praticamente substituído por “Existo (e sinto), logo penso” no revolucionário livro do neurologista Antonio Damasio – super leitura, recomendo fortemente!! Considerado o pai da filosofia racionalista, Descartes era defensor ferrenho pensamento racional acima de tudo. Mas hoje vemos que há esta controvérsia sobre sua lógica… Porque exercitar o cérebro e não exercitar o nosso espírito (essência, alma, coração, como lhe convir melhor) de nada serve. Precisamos acima de tudo sentir que estamos vivos. Sei que você sabe que está vivo, mas você se sente vivo? Se não ouvimos e damos vazão aos nossos sentimentos, adoecemos.

Sempre tive em mente que queria que meus filhos crescessem para se tornarem adultos ponderados e pensantes, então sempre estimulei a leitura e o questionamento na minha casa. Mas agora penso que talvez seja melhor que começar a ensiná-los a sentir em vez de pensar. Um é com o cérebro, o outro com o coração. Acredito que, se aprenderem a sentir, podem se tornar pessoas mais humanas, com mais empatia e sensibilidade. E talvez seja disso que o mundo realmente precisa. Saber sentir e reconhecer os sentimentos também é uma arte. Uma habilidade a ser aprendida. É a tal da inteligência emocional.

Pensar é sinônimo de viver com mais clareza. É maravilhoso, sim. Mas talvez seja bom também focarmos em uma vida com mais alma, mais beleza.

Pense nisso.

Ou não.

 

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