Autoestima: entre o ideal de eu e o eu possível

Ah, a auto estima. Que tema mais simples e complexo. Tem fases em que a gente acorda se sentindo a última bolacha do pacote, e fases que se acha a pior pessoa do mundo. (E tá tudo bem! Faz parte da experiência humana.

É importante ter em mente que a autoestima é um processo vivo, uma construção constante, influenciada pela nossa história, pelas nossas relações e pela forma como aprendemos a nos enxergar. Ela começa a ser construída lá na infância, nas nossas primeiras relações com os nossos objetos cuidadores (pai, mãe, etc), e vai sendo moldada ao longo de toda a vida. O que foi esperado da gente? Como se deu esse acolhimento? Como era o tom de voz dos adultos que nos circundavam? De cobrança, ou de incentivo? De carinho ou de crítica? O que estava nas entrelinhas da relação? Essas experiências vão sendo internalizadas e, muitas vezes sem perceber, passamos a reproduzir esse mesmo tom na forma como nos tratamos hoje.

A auto estima pode ser definida como “uma atitude positiva ou negativa da pessoa em relação a ela mesma” (Morrison, 1965). Então pergunto: como está a sua atitude com relação a si mesmo(a)?

Você consegue avaliar? Como você se trata no dia a dia? Qual o tom de voz que usa com você mesmo na sua cabeça?

Avaliando nossa atitude em relação a nós mesmos

Aqui mora um perigo: é muito importante que a gente seja JUSTO com nós mesmos nessa avaliação. Não podemos ser carrascos crueis, nem complacentes demais. É uma linha tênue entre esses dois polos. Que vozes são essas que internalizamos no decorrer da vida? Um superego crítico, com idealizações megalomaníacas? Ou um superego mais comedido e justo? Qual ideal de eu você construiu pra você?

A autoestima saudável nasce do alinhamento entre o ideal do eu e o eu possível (Freud, 1914)

Mas como fazer uma avaliação mais objetiva de algo que é, por natureza, tão subjetivo? Como medir o quanto eu gosto de mim? O quanto me respeito? O quanto me trato bem? Não é fácil de quantificar, as vezes a gente nem consegue colocar em palavras.

E é justamente por isso que a psicologia propõe dividir a auto estima em alguns pilares. Eles ajudam a gente a mensurar e mapear, de forma mais prática, sobre como está a nossa relação com a gente mesmo e em que área da auto estima pode estar dando problema:

Cabelo é tudo, Anthony! (cena de Fleabag)

Pilares da autoestima

1o pilar: autoconceito

É a forma como você se descreve. Quem você acredita que você é? Como você fala com você mesmo? Qual a historia que você conta sobre si? Sua narrativa te fortalece ou te diminui?

2o pilar: autoimagem

Diz respeito à forma como você se vê. Sua presença física no mundo. Quando você vê uma foto sua, o que você sente? Você seria alguém com quem você gostaria de conversar… ou você só se criticaria? Como você se sente ao se olhar no espelho? Como você cuida da sua aparência e da sua presença no mundo?

3o pilar: autoeficácia

Fala sobre sua confiança na sua capacidade de lidar com a vida. Diante de um desafio você se sente capaz de buscar recursos e encontrar soluções? Você assume responsabilidade diante dos seus problemas? Você consegue aprender, se adaptar, resolver? Ter agência? Implicar-se na sua desordem?

4o pilar: autorrespeito:

Fala sobre o quanto você respeita a si mesmo e se trata com dignidade. Você impõe limites quando necessário? Você sente que merece ser bem tratado? Você trata os próprios limites com a mesma seriedade que trata os limites dos outros?

5o pilar: autoaceitação:

É a capacidade de olhar para si com honestidade, sem distorcer, sem negar, e sem se destruir. Você consegue admitir suas falhas, sem reduzir todo o seu valor a elas? Você aceita essa realidade imperfeita porém realista como ponto de partida para agir e tomar atitudes? Para se haver com o que existe?

6o pilar: autocompaixão:

É sobre o tom de voz que você usa com você mesmo. Você se perdoa pelos seus erros? O tom de voz na sua mente é um tom de um mentor que orienta…. ou de um carrasco que acusa?

7o pilar: autoconfiança

Essa talvez uma das formas mais concretas de autoestima. Você cumpre o que promete para si mesma? Você pode confiar em si mesmo? Porque no fim, a confiança que temos em alguém se constrói através de pequenas evidências repetidas ao longo do tempo.

Percebe como a autoestima deixa de ser algo abstrato e passa a ser algo que pode ser observado, trabalhado e desenvolvido? Não é sobre “se amar” de forma genérica, mas sim sobre como você se trata, na prática, todos os dias.

Vale lembrar que, em quadros de sofrimento psíquico (como depressão ou estados de angústia profunda) a autoestima pode ficar significativamente abalada. Nesses casos, olhar para isso sozinho nem sempre é suficiente. O acompanhamento terapêutico pode ser fundamental para reconstruir essa relação consigo mesmo de forma mais segura, carinhosa e consistente.

Espero que tenha ajudado a pensar melhor sobre sua relação com você mesmo e sobre como melhorá-la =)
Beijos e até o próximo post !

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