Fleabag, a série mais premiada do ano

Ela mora em Londres, tem trinta e poucos anos e acaba de perder uma pessoa especial. É solitária, muito espirituosa e, apesar de suas boas intenções, nem sempre age dentro dos conformes. Está a todo momento se metendo em encrencas astronômicas. Parece um enredo bem comum, né? Mas não se deixe enganar. Em Fleabag, seriado que levou quatro Emmys no ano passado e mais alguns prêmios neste ano, vamos conhecer essa protagonista muito espontânea, ousada e inteligente que, com sua mente inquieta e borbulhante, podia muito bem ser qualquer um de nós.

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Com franqueza inigualável, encontros inusitados e diálogos ao mesmo tempo simples e profundos, a série retrata a complexidade que é a existência humana. Acompanhamos de perto as relações conflituosas, os laços familiares intensos, a urgência da personagem em se sentir amada, tocada e bem quista. Tudo sempre com um toque de comédia e muito bom humor. É impossível não rir e se identificar com ela.

Adepta à auto sabotagem (quem sempre?), ela reage às situações cotidianas de maneira quase sempre autodestrutiva. Seja no trabalho, com a família, ou em seus encontros sociais e amorosos. Nós, espectadores, sofremos com ela enquanto testemunhamos, episódio após episódio, suas decisões que vão de péssimas a duvidosas de maneiras que nem precisaríamos de Freud para explicar.

O modo como ela transita pelos seus dias convertem-se em profundas reflexões sobre a vida, família, amor, solidão e sexualidade feminina – aliás, a série vai comprovar que apesar de estarmos em pleno século XXI, esta ainda é uma área muito mal explorada e repleta de tabus. Não há uma cena de nudez sequer durante as duas temporadas, porém a série toda é intensamente sexual. Aborda-se o tema com muita liberdade, mostrando todos os seus aspectos de forma visceral e sem rodeios.

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O que mais me marcou em Fleabag é a força e autenticidade da personagem em manter-se honesta consigo mesma neste mundo onde, numa angustiante busca eterna por aprovação e pertencimento, usamos máscaras o tempo todo. Escondemo-nos atrás de rixas políticas, falsos moralismos, relacionamentos dominadores, desculpas esfarrapadas, causas tidas como nobres… não por acreditarmos genuinamente, mas pela simples necessidade que temos de nos sentir parte de algo maior. Fleabag consegue ir direto ao ponto e nos mostrar isso com muita simplicidade, fazendo-nos questionar essas causas e valores às quais nos agarramos tão fervorosamente, e prova: nada é tão simples assim, e ninguém é exatamente o que parece.

Afinal, você é verdadeiro consigo mesmo? É difícil distinguir o que cada um é genuinamente daquilo que é anexado de fora. Como lidamos com a perda? Não me refiro apenas à mortes ou términos de relacionamento. Falo dessa sensação crônica e atual de estarmos sempre tentando nos reerguer, dia após dia, em tempos agitados onde tudo é muito intenso e acontece muito rápido, expectativas estão sempre altas, as quedas são sempre bruscas e as perdas, diárias – sejam grandes ou pequenas.

Num formato moderno e intimista, a série é bem curta: apenas duas temporadas, ambas com início, meio e fim, que vão direto ao ponto. Sem as típicas enrolações que fazem o espectador se sentir tapeado. Obrigada, Fleabag, por respeitar nossa inteligência e nosso tempo.

Estranha e Engraçada. *FLEABAG* | by Laize Ricarte | MediumFleabag é sobre errar e se aceitar nessa intrincada e estabanada jornada de vida. Ela veio para nos esfregar na cara algumas doloridas e necessárias verdades, para nos fazer questionar sobre como levamos nossos dias, como baseamos nossas escolhas, quais os nossos reais valores, mas, principalmente, para desmistificar essa ideia romantizada de clichês resolutórios de superação total. Nem tudo na vida tem solução, e tudo bem! Vida que segue. Difícil, né?

Mas não desanime: logo na abertura do primeiro episódio e durante toda a série, nossa protagonista deixa bem claro: esta é uma história de amor. Sugerindo que, talvez, como já diziam os poetas, o amor é o caminho e a solução para os males deste mundo. Será?

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