Muito se fala sobre impor limites, sobre a importância de saber dizer não. Mas sei que para alguns isso parece a lenda mágica do unicórnio rosa, afinal, quem mais precisa impor limite em geral é a pessoa que menos tem conhecimento desse fato.
Colocar limites tem a ver com se conhecer, saber minimamente quem você é e o que você aceita (ou não). Tem a ver com estar em sintonia com o seu corpo pra ser capaz de receber os sinais dele quando ele achar que você estiver entregando mais do que pode, aceitando mais do que dá, concordando mais do que é saudável.
Um limite é uma fronteira psíquica entre o eu e o outro, absolutamente necessário para a sobrevivência do nosso self. E ele é um reflexo de nossos conflitos internos, da nossa história infantil, e da forma como estruturamos o nosso desejo em relação ao desejo do outro.
Não respeitar um limite importante pra você é abandonar a si mesmo. É esconder a verdade de quem você é, o que acaba causando uma sensação crônica de vazio e de despersonalização. É ser sequestrado pelo desejo do outro – ou por algo tido como normal, cotidiano, mas que já não funciona mais pra você.
As vezes esse outro o faz sem querer, mas mesmo assim, isso causa mágoa e ressentimento. O ressentimento é a conta que chega quando você passa tempo demais abandonando a si mesma. Afinal, você culpa o outro por não respeitar um limite que você mesma não impôs, ou não reconheceu que precisava colocar, ou não se permitiu colocar.
Tá, mas então, como colocar um limite?
Vamos por partes:
Primeiro: como eu LOCALIZO esse limite dentro de mim?
As vezes nem sabemos exatamente o que está errado dentro de nós. Quando você estiver na dúvida sobre estar violando um limite ou não, sobre onde fica a sua fronteira psíquica, pergunte-se:
1 eu quero mesmo fazer isso? Ou eu estou fazendo só pra agradar o outro? Estou violando algo importante pra mim? (exemplo: estou violando minha privacidade, meu tempo, estou indo além do que quero ir?)
2 por que eu quero fazer isso? Tá… e por quê? E por quê? Entrar a fundo nessa questão para descobrir a sua real motivação.
3 perceba os sinais do seu corpo: tem raiva? Tem tensão maxilar? Tem embrulho no estômago? Tem coração apertado? Nó na garganta? Nosso corpo o tempo todo está nos dando sinais importantes sobre nós mesmos.
4 De que situações eu costumo sair com raiva, ou culpa ou esgotamento? Pense. Perceba quando estiver acontecendo. Traga para a consciência.
Pois bem, localizou a dor? A fronteira que você precisa traçar? Pode ser algo mínimo, não precisa ser 8 ou 80.
Agora é preciso comunicá-la. O outro não tem como adivinhar qual o seu limite, então é preciso falar sobre ele. As vezes a gente quer que o outro adivinhe, que perceba como estou me sentindo violada. E isso é injusto com você mesmo e com o outro. Com você mesmo porque você ativamente está participando desse sequestro do eu, ativamente não está se respeitando. E com o outro porque não dá a chance dele fazer diferente.
E quando o ressentimento cresce, a distância se impõe. Não só entre eu e o outro, mas entre eu e eu mesma, minhas convicções, meus desejos, principalmente na presença desse outro.
Por que é tão difícil impor um limite?
1 Medo de ser rejeitada: talvez você aprendeu que o único jeito de ser amada e aceita é ceder, sempre, ao que o outro quer.
2 Sentimento culpa por se posicionar. É preciso entender de onde vem esse sentimento de culpa: será que você aprendeu que é egoísmo impor limite? Aqui vale fazer uma avaliação minuciosa sobre essa culpa. De quem é essa voz acusatória? De onde ela vem? O que ela quer te dizer? Qual a real função dela na sua vida? A que ela está atrelada? Será que ela ainda faz sentido mesmo?
3 O limite que precisa ser imposto conversa com sua história de vida de uma forma muito íntima – aqui é preciso entender onde o bicho pega, destrinchar, pra localizar que emoção ou memória vem quando você tenta se impor. Que memória, que angústia? Que te prende nesse lugar, que te faz ter medo de revivê-la se fizer diferente?
4 idealização de si ou de algo que você gostaria de ser mas não é (bem vinda ao clube!) Uma pessoa ultra paciente, uma mulher que dá conta de tudo, uma profissional que não erra. Pergunte-se: da onde surgiu essa idealização? Em que momento da sua vida? Por que você sustenta isso? Será que ela faz sentido hoje?
Comunicar limites também é construir identidade. E aprender a tolerar o desconforto de frustrar o outro. Lembre-se: nem todo mundo vai gostar dos seus limites, mas isso não significa que eles estejam errados 🙂
Por hoje é só pessoal.
Com votos de que vocês reconheçam suas fronteiras psíquicas. Comuniquem-nas. Imponham os seus limites, conheçam quem são. Saibam a que vieram. E vivam um pouco mais de acordo com o que faz sentido pra vocês!
Ótima semana! Até o próximo texto.
beijo
Débora
sua psi de plantão


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