Esperar “estar perfeito” é uma forma sofisticada de nunca começar.

“Quando for o momento certo”

“Quando eu tiver certeza”

“Quando a metodologia estiver redondinha”

“Quando eu decidir o melhor material”

Quem nunca caiu na falácia do perfeccionismo que atire a primeira pedra. O timing nunca é o certo, há sempre algo mais a ser feito, ser analisado, ser adicionado.

Nada contra ter padrões altos e querer dar o melhor de si. Acho nobre, válido, admirável. Mas existe uma diferença enorme entre buscar excelência e buscar padrões inatingíveis.

A busca pela perfeição (seja um trabalho perfeito, um texto perfeito, uma imagem perfeita, uma ideia perfeita) cria uma distância cruel entre quem você é e quem você acredita que deveria ser. E, dentro dessa distância, crescem a autocrítica, a cobrança, o medo de falhar e a sensação de ainda não ser suficiente.

Você imagina os melhores cenários, as melhores respostas, e desfechos mais bonitos. Quer tudo impecavelmente alinhado com seus valores e sonhos (as vezes sem nem ter certeza sobre que sonhos e valores são esses).

Régua interna

O problema é que as vezes os marcadores dessa régua estão tão altos e fictícios, que nos levam a paralisação. Simplesmente paramos! Não batemos o martelo, não damos o veredito, não falamos o sim, não tomamos a decisão.

A busca pela perfeição é uma promessa de proteção: “Se eu fizer tudo direitinho, vou ter uma vida melhor”. “Ninguém vai me rejeitar”. “Ninguém vai descobrir ‘quem eu sou de verdade’”.

Será? De quem você busca proteção? Quem você quer agradar? O preço dessa ilusão de perfeição é alto. Enquanto você tenta acabar com qualquer possibilidade de erro, acaba também com a espontaneidade, o improviso, o movimento e a criatividade, porque a criatividade precisa de liberdade e espaço para errar. A vida perde dinamismo porque tudo precisa ser analisado mil vezes antes de acontecer. 

Eu real x Eu idealizado

A distância entre o seu eu real e o eu idealizado é uma fantasia, uma projeção do nosso superego. Viver como seu eu real é tomar decisões levando em conta quem você consegue ser hoje: com seus recursos, seus limites, contradições e circunstâncias atuais. E menos idealização, menos auto julgamento, menos auto crítica e auto cobrança.

Quando se pegar nessa tentativa desenfreada por fazer algo perfeito, pergunte-se:

> Qual é a régua interna que eu tenho utilizado para se avaliar e tomar decisões? 

> De quem (ou para quem) é essa régua?

> Qual é o menor passo que eu poderia dar hoje em direção ao imperfeito factível, em vez de permanecer paralisado no perfeito impossível?

> O que vai acontecer se eu não for perfeita? Que riscos estou correndo?

O apego à perfeição nos tolhe de nós mesmos. Em vez de nos levar em direção ao que podemos ser, nos distancia de quem somos hoje.

Dê o seu melhor, sim. Mas construa uma régua mais justa e honesta sobre o que é esse seu melhor. Lembre-se: o seu melhor não é aquilo que não traz falhas, mas o real, o que existe apesar delas.

beijos

da sua psi nada perfeita 🙂

Débora

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PS: Relação com ansiedade e depressão

O perfeccionismo é uma característica muito relacionada a transtornos de ansiedade e depressão. Quando nenhum resultado parece suficiente, podem crescer a frustração, a culpa, a sensação de fracasso e o pior de todos: a desesperança.

Caso o nível de exigência consigo mesma esteja alto demais, procure ajuda. Esse sofrimento merece ser olhado com mais cuidado.

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