Uma nota sobre desejar, planejar e se frustrar

#partiuplanoB. Porque a vida é feita de planos B.

Precisamos começar a normalizar os planos B. Os sonhos não concretizados. Os equívocos, os fracassos, as decepções, as mudanças de rota, os planos deixados de lado, os desejos que nunca verão a luz do dia. Desculpe o incômodo, mas hoje eu vou falar sobre os planos que não dão certo – e o que raios a gente pode fazer sobre isso.

Primeiro: desejar é preciso.

Desejar é ter a capacidade de encantar-se com a vida e de perceber o mundo como um lugar cheio de possibilidades. É parte vital e constitutiva do ser humano, faz parte da nossa essência ativa, daquilo que nos impulsiona rumo ao futuro. Querer algo na vida — seja ter uma profissão, conhecer um lugar, ver o pôr do sol, aprender a cantar, comer um docinho gostoso, ser uma pessoa melhor, terminar de ler um livro ou concluir uma tarefa — dá estrutura à vida e ao nosso mundo interno. Nos põe em movimento, dá direção. Faz nossa essência reluzir.

Quando a pessoa não deseja nada, quando nada na vida faz seu coração acelerar, seus olhos brilharem ou o estômago borbulhar de empolgação — nem que seja um pouquinho —, é porque algo está seriamente fora de lugar. Encantar-se com a vida é uma habilidade que todos têm na infância, mas que vai se perdendo ao longo dos anos. Alguns mais, outros menos.

Sim, desejar é preciso. Mas tão importante quanto sonhar e desejar é ser capaz de se desprender do sonho quando as coisas não saem como o planejado. Afinal, a vida tem muito mais plano B do que plano A.

Abrir mão de planos mexe com fantasias profundas, com desejos da infância e nosso senso de sentido. Não é fácil! E aí questionamos nossas escolhas, nossa competência, nossos recursos. O universo, a vida, os antepassados. Porque dói. Sonhos não realizados ocupam prateleiras inteiras em nossa mente. Ficamos presos nos “E se eu tivesse…”, “E se eu soubesse…”, “E se fosse diferente…”. Esse limbo do pretérito imperfeito é perigoso. Se não prestarmos atenção, podemos viver o resto da vida enredados nesse labirinto eterno do “e se”.

Em vez de ocupar a mente com o “e se”, é preciso elaborar a perda desse sonho. Fazer o luto pelo que se perdeu. Pelo imaginado que, por alguma razão, não foi possível viver. Freud diz que fazer o luto é ser capaz de retirar a libido investida no objeto perdido (ou no desejo perdido) e reinvesti-la em outro lugar. Parece tão fácil, né?

Esse luto pode durar um ano, um minuto. Uma vida inteira. Ele pode ser concluído ou não, pode voltar de tempos em tempos num formato de ruminação, dúvida ou saudade. Independentemente da duração, é importante vivê-lo e reconhecê-lo.

E então, dos limões que restarem, começar o processo da limonada. O reinvestimento da libido. E isso significa: ser capaz de reimaginar uma possibilidade nova a partir do possível. Uma fantasia nova, um desejo novo, uma ideia nova. E, para isso, é necessária a capacidade de mudar de perspectiva, de sustentar certa flexibilidade cognitiva, uma grande imaginação e muita coragem para desapegar e mudar o rumo.

Winnicott dizia que é preciso desenvolver a capacidade de criar o mundo continuamente, de encontrar novos significados e novas formas de estar vivo. O gesto criativo não é só fazer arte, mas conseguir olhar para a realidade e inventar novas possibilidades dentro dela.

Como anda sua relação com a criatividade? Você tem nutrido a sua capacidade de imaginar novos cenários, ou está apegado demais aos Planos As? Como é esse apego?

Acho que este post é sobre desejar e seguir desejando, sem esperar que todos os desejos sobrevivam. Aceitar que alguns sonhos vieram apenas para nos levar até um certo ponto do caminho, e que deixá-los partir não diminui quem somos. Apenas abre espaço para que outros novos eus possam nascer.

E que venham os planos Bs, Cs, Ds… e todas as nossas versões que vierem junto.

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