
Lacan dizia que somos sujeitos divididos. Mas como, divididos? Divididos entre nossos sonhos, medos e limites. Entre nossos desejos e conflitos.
Entre o “eu” que apresentamos na vida social, o eu do trabalho, o da família, e o “eu” que idealizamos ser. Entre nosso “eu” mais primitivo, aquele que faz birra, que deseja, que se angustia, anseia, ama, teme… e o nosso “eu” mais maduro e desenvolvido, que já tem mais noção do que quer e das escolhas que deve fazer pra chegar lá. Que topa escolher e abrir mão (ah que difícil ser adulto, não é mesmo?)
Temos uma infinidade de EUS dentro de nós.
Para piorar a situação, Lacan vai ainda mais longe e diz que o discurso e o desejo dos outros nos atravessam. Ou seja, além dos EUS que nos habitam, há também partes de outros nos habitando. E as vezes, queremos desesperadamente corresponder às expectativas dos que amamos*, mas ao mesmo tempo queremos viver a ‘nossa verdade’, e nem sempre a ‘nossa verdade’ está em linha com o que os outros esperam de nós. (Lembrando que a nossa verdade também é criada pelas partes dos outros que nos habitam. Ih, complicou né?)
E agora, José?
Como administrar tudo isso?
Afinal, a gente pauta nossas escolhas no que os outros esperam de nós, ou no que nós acreditamos que queremos para nós mesmos? Ou é uma salada de tudo? É possível separar essas duas coisas? O outro de mim mesmo? Já que a gente é constituído por milhões de pequenas partes dos que cruzam nosso caminho? Poético né? Poético e complexo.
Sustentar essa bagunça interna não é uma tarefa simples. Exige um certo jogo de cintura, um certo je ne sais quoi de manejo. Uma certa clareza de mente. Mas é possível? Olha, se organizar direitinho todo mundo ganha espaço. Então vamos lá:
Comece pelo começo. E o começo é, literalmente, mapear o que der para ser mapeado dentro de você.
Olhando para dentro de você, o que você vê? Que emoções aparecem? Que desejos? Que angústias? Que dores? Quantos eus você encontra? O que eles gritam? E o que eles dizem timidamente? O que querem? O que não querem de jeito nenhum? Qual eu é mais incisivo? Qual eu é mais quietinho? Qual te surpreende mais? Qual você já não aguenta mais ver?
O processo passa por identificar essas partes, nomeá-las, compreender o que cada uma delas significa na sua história, quais ainda fazem sentido, quais já não fazem mais – afinal, (lembra?), você mudou. Novas pessoas cruzaram seu caminho. Você viveu coisas novas, aprendeu coisas novas. Deixou partes suas para trás. Saber jogar fora o que não serve mais também é parte do processo.
Deu pra entender?
Lembre-se, não existe resposta certa ou errada, e muitas vezes não tem nem resposta. Mas tudo começa assim, como uma pergunta. Um exercício de reflexão, uma abertura ao nosso próprio desconhecido.
Boa sorte =)
beijos! até o próximo

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