
Você já parou pra perceber quantas facetas de sua personalidade existem dentro de você? São muitos “eus” num mesmo “eu”.
Existe o “eu” que apresentamos na vida social, o “eu” do trabalho, o da família, e o “eu” que idealizamos ser. Existe o nosso “eu” mais primitivo, aquele que faz birra, que deseja, que se angustia, anseia, ama, teme… e o nosso “eu” mais maduro e desenvolvido, que já tem mais noção do que quer e das escolhas que deve fazer pra chegar lá. Que topa escolher e abrir mão (ah que difícil ser adulto, não é mesmo?)
Temos uma infinidade de EUS dentro de nós – e muitos discordam entre si, entram em conflito. Um pandemônio!
Para piorar a situação, não são só nossos “eus” que nos habitam. Há também partes de outros dentro de nós. Os desejos, o discurso, os medos dos outros nos atravessam. A começar por pai e mãe, amigos, familiares, chefe, colegas… as vezes a gente até se deixa guiar pelas ideias e desejos dos antepassados que já nem estão mais aqui (alô alô, trauma transgeracional! Mas isso é papo para outro post).
E aí a gente se divide. Se divide entre tentar corresponder às expectativas dos outros, e o desejo de viver a ‘nossa verdade’.
A gente se divide entre o que o outro quer para nós e o que a gente quer para nós mesmos. (Lembrando que a nossa verdade e nosso querer também são criados pelas partes dos outros que nos habitam. Ih, complicou né?)
E agora, José? Como administrar tudo isso?
Afinal, se a gente pauta nossas escolhas no que os outros esperam de nós, pode haver ressentimento. E se a gente faz o que quer mas não consegue bancar essa escolha, pode haver culpa.
Sustentar essa bagunça interna não é uma tarefa simples. Exige um certo jogo de cintura, um certo je ne sais quoi de manejo. Uma certa clareza de mente. Uma certa abertura às possibilidades. Mas é possível.
Comece pelo começo: olhando para dentro de você, o que você vê? Que emoções aparecem? Que desejos? Que angústias? Que dores? Que eus você encontra? O que eles gritam? E o que eles dizem timidamente? O que querem? O que não querem de jeito nenhum? Qual eu é mais incisivo? Qual eu é mais quietinho? Qual te surpreende mais? Qual você já não aguenta mais ver? Sobre seus desejos, qual você realmente quer?
E para cada resposta acima, pergunte: Por quê? Por quê? Por quê? Tente chegar no âmago de algo.
Exemplo:
1- “Quero muito ser promovido.”
Por quê?
“Porque quero ganhar mais dinheiro.”
Por quê?
“Porque quero me sentir mais seguro.”
Por quê?
“Porque tenho medo de depender dos outros.”
Por quê?
“Porque crescer dependendo dos meus pais me fazia sentir pequeno.”
Por quê?
“Porque, para mim, depender sempre significou não ter valor.”
2- “Quero que todo mundo goste de mim.”
Por quê?
“Porque não gosto quando alguém fica bravo comigo.”
Por quê?
“Porque sinto que fiz algo errado.”
Por quê?
“Porque, desde cedo, aprendi que precisava agradar para ser amado.”
3- “Quero muito encontrar um relacionamento.”
Por quê?
“Porque quero alguém ao meu lado.”
Por quê?
“Porque tenho medo de ficar sozinho.”
Por quê?
“Porque, para mim, ficar sozinho às vezes parece significar não ser importante para ninguém.”
“Quero muito ter um carro vermelho”
por quê?
“porque ele é estiloso, e eu acho bonito”
por quê?
“porque eu vi uma menina do trabalho usando”
Percebe a beleza de se perguntar o por quê das coisas? Só assim conseguimos chegar no âmago das questões.
O processo passa por identificar essas partes, nomeá-las, compreender o que cada uma delas significa na sua história, quais ainda fazem sentido, quais já não fazem mais – afinal, você mudou! Novas pessoas cruzaram seu caminho. Você viveu coisas novas, aprendeu coisas novas. Deixou partes suas para trás. Saber jogar fora o que não serve mais também é parte do processo.
E lembrar que sempre, sempre, há partes misteriosas e desconhecidas de nós mesmos, que continuam dentro de nós, esperando a hora certa de se apresentarem para o mundo.
Não é empolgante?
beijos! até o próximo post

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