Ter agência é implicar-se na própria desordem

(Série: vocabulário da psicanálise e neurociência. Ep 1)

Hoje vamos falar de conceitos bem importantes no mundo da neurociência e da psicanálise (sim, os dois universos tem muitos paralelos! Não é incrível isso? Como Freud láááá em 1900 já conseguiu antecipar e prever tantas coisas que a ciência só viria a descobrir depois do século XXI?  O cara era bom)  

Enfim, com essa série de vocabulários, minha intenção é ampliar a nossa possibilidade de refletir, questionar e avaliar nossa existência. Como escreveu George Orwell em 1984, quanto mais vocabulário temos, mais profunda nossa capacidade de pensamento crítico, de abstração, de compreender a vida e a nós mesmos. Nosso mundão interno, esse negócio complexo, incrível tão familiar e ao mesmo tão estranho a nós.

Ou seja, é só ganho. Então vamos lá aos conceitos do dia:

1 TER AGÊNCIA (conceito da neurociência e da psicologia cognitiva) é conseguir agir. Ter condições de direcionar a própria vida. É saber que existe uma possibilidade de interferir nas circunstancias ao nosso redor, e portanto, agir.

2 IMPLICAR-SE: é um termo muito usado no campo da psicanálise para referir-se a uma responsabilização subjetiva do sujeito sobre suas próprias falas, desejos, sintomas, atitudes. Tem a ver com reconhecer-se agente de sua própria história e sofrimento e, a partir daí, decidir como proceder.

Ambos os conceitos constituem praticamente um chamado à ação. O primeiro de forma mais concreta, sistemática, e o segundo de forma mais subjetiva, convocando o sujeito a assumir sua própria experiência e desejo – olha que difícil isso… Deu pra entender?

Quando Freud pergunta para sua paciente Dora em 1900 “qual sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?” ele a está convocando para a ação. E veja bem, a ação não precisa ser concreta e física, pode ser interior. Um movimento na forma de pensar, uma ampliação no olhar, uma mudança de ângulo, uma percepção maior de si e do cenário que se desenrola. Tudo isso entra no implicar-se subjetivamente.

(Freud e Dora)

E aí olha que legal: se eu consigo AGIR frente uma circunstância desafiadora (tomar uma atitude, me movimentar, me questionar ou dar um passo – mesmo que mínimo- ) eu começo a criar evidências concretas de que sou capaz de agir. E a partir dessas evidências, desenvolvo um maior senso de agência! Ou seja, nosso cérebro – que está sempre moldando a percepção que tem de nós e nosso ambiente ao redor – começa a confiar na minha capacidade de agir e de sustentar meu desejo e minha posição de sujeito. E isso é mágico!

(adendo importante: é lógico que a vida vai trazer situações difíceis e que vamos nos sentir paralisados, emocionalmente abalados, ou que vamos ter dificuldade de agir, refletir, pensar, construir um pensamento!! Mas se isso já se tornou algo crônico, que está durando há um tempo, então é preciso olhar com mais cuidado e carinho para tudo e buscar entender aonde está o problema. Desde quando me sinto assim? Me sinto paralisado como? Diante de que? O que eu gostaria de fazer que não estou conseguindo fazer? Tem algum pequeno passo que eu poderia dar em direção a esse lugar que quero chegar? Há sequer um lugar onde eu gostaria de chegar? Não hesite em buscar ajuda!)

Pergunta para refletir:

Frente a uma situação x, eu consigo tomar uma atitude? Ou me sinto paralisado? Qual é o meu senso de agência?

(lembrando que o senso de agência é a sensação: fui EU quem fiz isso. “Eu fui capaz de controlar esse movimento / ação / decisão”)

E aqui essa pergunta se divide em dois:

1 como está a sua agência? (o seu agir?) De que forma você tem se implicado nas suas questões?

2 como está a sua percepção dessa agência? (vc está percebendo corretamente o seu agir? Ou há alguma dissonância entre a sua percepção e sua ação?)

Por hoje é só pessoal

Qualquer dúvida podem deixar aqui ou me chamar no zap

Beijos e uma semana com muita agência concreta e “implicações” subjetivas