Sobre desejar

Essa semana fui pela primeira vez na vida num sex shop.
Eu e uma amiga, a Livia. Daquelas, lindas, leves e livres, que não julgam sabe?

Entramos tímidas. E a vendedora de cabelos curtos e brincos coloridos nos recebeu também timidamente.

Logo nos perdemos naquele mundaréu de brinquedos de adulto.
Vibradores, fantasias, algemas, toques, texturas. Gel saboroso. Que explode lá dentro. Apimentado ou refrescante. Que atiçam a região.
Lugar de adulto. Coisa de gente grande.
Será que sou gente grande então?
Duas meninas entram logo depois de nós. Também timidamente.
Todos entram tímidos neste lugar. Por que?
Será que é por ser difícil reconhecer que somos seres desejantes? Me pergunto se somos regidos por uma sutil mas poderosa tendência a não se permitir. A não acolher e assumir nossos desejos nem para nós mesmos.
Não apenas no sexo. Na vida também.
É quase proibido sentir vontade. O desejo é reprimido, silenciado pelas expectativas dos que nos rondam. E quem são esses outros que detém tanto poder em nossa vida?
Mas ali não havia outros. Naquele espaço de pouco mais de 30 metros quadrados, éramos só nós por nós mesmas. E tudo podia. Aliás, tudo devia.
Me deixe ser feliz – um apelo. Quero existir. Manifestar meu desejo. Um espaço para nos permitir.
Foi libertador. Afinal, o que você deseja?
Pelo que você anseia DE VERDADE?
Você sabe?
É difícil ter certeza.
Quer mudar de emprego? Há algum NÃO entalado?
Às vezes não conseguimos sequer reconhecer se há questões assim nos corroendo.
O que te dá mais prazer?
O desejo autorizado. Mais do que isso: celebrado.
O apetite pela vida. Pela vontade de viver.
O tesão. Te incomoda essa palavra?
Desejos retraídos, as vezes desconhecidos, porque é feio.
Desejar é se entregar. É íntimo, visceral, mas proibido.
E ali, éramos cinco desconhecidas compartilhando inseguranças, em olhares carregados de histórias, intimidades e confidências. Reunidas quase num manifesto por um bem maior.
Deslumbradas, mas sem saber o que olhar ou escolher.
Com amor, paciência e delicadeza inigualável, nossa vendedora, poderosa deusa do recinto, explicava cada item. Não havia julgamento.
Não havia olhares acusatórios ou transgressores.
Havia sim tamanhos e diversidade para todos os gostos.
Saí com minha sacola de desejos.
Com a esperança de conseguir reconhecê-los com a mesma facilidade na vida real.

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